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Ao completar 15 anos, o Google aprende a conversar com a gente

A ferramenta de busca mais popular do planeta não se contenta em mostrar uma simples listas de sites. Sabe que para lidar com o grande volume de dados criados por dia, precisa criar novas tecnologias capazes de pensar e agir como gente em vez de máquina.

Você provavelmente não percebeu, mas há um mês o Google fez a maior mudança na sua busca nos últimos três anos e que afeta 90% dos resultados exibidos pelo site. Ela tornou-se melhor em responder diretamente às perguntas feitas por nós para assim se adaptar a uma forma cada vez mais comum de procurar por informações. Hoje, em vez de só digitarmos palavras-chaves, questionamos o Google como se ele fosse uma pessoa. “Qual o melhor restaurante de São Paulo?”. “O prefeito de Manaus é...”. “Lista de sintomas para meningite”.

Por isso o método mais antigo de busca, procurar cada palavra separadamente em cada um dos documento arquivados em sua memória digital, não funciona mais tão bem. Foi preciso mudar. Isso aconteceu silenciosamente há um mês e só veio a público agora para coincidir, nesta sexta-feira (27/9), com a comemoração dos 15 anos da empresa e do serviço de busca que deu origem a ela. Chamado “Beija-flor”, o novo sistema também mostra o quanto o Google mudou desde então.

O Google não foi a primeira ferramenta de busca. Isso aconteceu em 1990. Quando a empresa surgiu em 1998, já haviam neste mercado dezenas de competidores. Entre os mais populares estavam o Altavista, o Yahoo e o Cadê? (entre os brasileiros, claro). Mas logo o novo serviço ganhou popularidade por trazer melhores resultados que os da concorrência. Conseguia isso porque seus criadores, os americanos Larry Page e Sergei Brin, inventaram uma forma mais inteligente de medir a importância de um site para colocá-lo em evidência, um sistema conhecido como “Page Rank”. Ele não só identifica quantos sites fazem referência a um endereço, mas também a importância desses sites.

Quanto mais relevante for quem cita um endereço, mais peso essa conexão ganha - e o site citado recebe mais pontos e destaque no ranking do Google. Isso a tornou a busca mais popular do mundo, com 65% do mercado e uma dianteira considerável sobre todos os outros concorrentes, que têm participações de um dígito.

Na época em que o Google surgiu, os serviços de busca ainda eram algo relativamente novo em comparação com hoje. A tecnologia era pouco inteligente e não conseguia entender a linguagem humana. Nós é que tínhamos que aprender a falar com ela, quais termos digitar e como fazer isso. Isso mudou completamente. Nesse tempo, os computadores e conexões de internet ficaram mais poderosos. O Google hoje tem um histórico de uma década e meia de buscas. Pôde aprender com nossos hábitos, ajustar-se a eles e fazer mudanças para que sua ferramenta seja mais esperta.

Hoje, o Google vai muito além de exibir uma lista de sites. Completa o que digitamos e nos corrige quando escrevemos errado uma palavra. Consegue prever o que queremos e mostra resultados antes que tenhamos terminado de digitar o que buscamos. Entende o contexto de uma busca de acordo com os interesses de quem a faz e de onde essa pessoa está. Compreende sinônimos. Sugere novas buscas. Faz contas. Compara informações. Correlaciona fatos e dados para trazer informações extras sobre um assunto. Descobre nossas necessidades e informa a duração do trajeto até o trabalho ou o câmbio do país no qual estamos sem que seja necessário pedir. Agora, responde perguntas cada vez melhor. Não precisamos mais aprender a conversar com o Google. Aos 15 anos, é ele que está aprendendo a conversar com a gente.

“Queremos ser mais do que uma caixa onde você digita palavras, mas um assistente virtual que te ajude no dia a dia, trazer respostas em vez de só informações e até mesmo antecipar o que você precisa”, diz o vice-presidente de engenharia e líder do time de busca conversacional do Google, Scott Huffman. “Ainda não chegamos lá, mas estamos no caminho e avançando um pouco de cada vez.” É uma forma modesta de falar desse esforço. A qualquer momento do dia, 200 mudanças são testadas pelo Google. Só no ano passado, 118.812 alterações foram avaliadas. Dessas, 10.391 foram examinadas internamente e 7.018 foram testadas pelo público. No fim, 665 foram implementadas, uma média de duas por dia.

Parte desse trabalho é feito no Brasil desde 2005. Naquele ano, a pequena empresa mineira Akwan foi comprada pelo Google e transformada no seu centro de pesquisa em busca, em Belo Horizonte. Atualmente, trabalham no laboratório 100 engenheiros, a maioria deles com mestrado ou doutorado em ciência da computação ou área correlata. Sua principal missão é encontrar formas de melhorar o ranking do Google. “Não fazemos traduções ou criamos para o mercado brasileiro. Desenvolvemos tecnologias em escala global”, afirma o diretor de engenharia Berthier Ribeiro-Neto, cofundador da Akwan e o responsável pelo centro brasileiro do Google.

Ao longo dos últimos oito anos, foram investidos cerca de US$ 150 milhões na unidade de pesquisa mineira. Esse dinheiro e a concentração de talentos trouxe ótimos resultados. Uma avaliação da própria empresa posiciona uma das mudanças feitas por esse time como a segunda mais importante já feita em sua busca. Entre as 30 alterações mais impactantes, o grupo de BH responde por cinco delas. Entre elas, está a capacidade do Google de entender a diferença entre termos semelhantes ou iguais. Faz isso ao compreender o conceito expresso por uma palavra para diferenciá-la e trazer resultados adequados. “Há 15 anos, a busca só encontrava documentos digitais com os termos digitados. Hoje entendemos melhor as intenções por trás dela”, diz o engenheiro de software Hugo Santana.
Essa habilidade é muito importante já que 15% de todas as buscas diárias nunca foi feita antes. Assim, ao entender o que realmente queremos encontrar, o Google relaciona as pesquisas inéditas a outras feitas anteriormente. “Pensávamos que esse índice cairia com o tempo porque já teríamos visto todos os tipos de buscas, mas mele se mantém constante”, afirma Huffman. “Isso mostra que novas informações e perguntas sobre elas também são constantes.”

Aí está o maior desafio do Google: criar rapidamente tecnologias mais inteligentes para dar conta de sua missão autoimposta de organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível. Ao fazer isso, a empresa tornou-se uma Golias do mercado de busca, mas hoje a situação é bem diferente do que há 15 anos. Cerca de 90% de toda a informação digital foi criada nos últimos dois anos, e nossa capacidade de gerar novos dados dobra a cada 40 meses. Hoje, esse volume está em cerca de 2,5 exabytes, ou 625 milhões de DVDs. Diante desse gigante digital, o Google é o Davi - e tenta ganhar essa batalha com uma pedra por vez.

por RAFAEL BARIFOUSE

Fonte: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/09/ao-completar-15-anos-o-bgoogleb-aprende-conversar-com-gente.html